A lição da morte de um cientista - transgênicos e aids

Hiroshi Noda

Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia
(artigo publicado no "JC E-Mail" 18/07/200)

A liberação de cultivares transgênicas de plantas para uso comercial envolve dois aspectos que, apesar de interrelacionados, podem ser discutidos separadamente.

O primeiro diz respeito aos possíveis impactos econômicos e sociais sobre a produção e abastecimento de alimentos e segundo, os impactos socioambientais envolvendo questoes de bio-seguranca pela liberação massiva desses OGMs (organismos geneticamente modificados) na natureza.

Quanto ao primeiro aspecto, ate' o momento, nao se encontrou nenhuma evidência sobre as vantagens ou superioridade das variedades transgênicas em relacao 'as variedades melhoradas pelo metodo classico (baseadas nos conhecimentos em genetica mendeliana, quantitativa, populacoes e evolucao), no que tange 'a quaisquer caracteristicas agronomicas relevantes.

A possivel liberacao para uso comercial, no territorio nacional, de duas variedades transgenicas (soja e milho) produzidas por empresas transnacionais, nao acrescenta nenhuma vantagem agronomica que pudesse justificar os possiveis riscos 'a saude humana e ao ambiente.

A soja da Monsanto (Roundup Ready) e' geneticamente resistente ao herbicida Roundup, fabricado pela mesma empresa. Desse modo, a Monsanto utiliza esta caracteristica varietal para comercializar, com exclusividade, dentro do mesmo pacote tecnologico, o seu herbicida.

O problema e' agravado pelo poder economico das grandes corporacoes transnacionais, hoje extremamente cartelizadas, que por meio da propaganda, muitas vezes enganosas, poderao excluir do mercado, em curto espaco de tempo, as variedades locais ou nacionais.

Isto acarretaria duas consequencias imediatas: a primeira, a homogeneizacao genetica dos plantios, criando condicoes favoraveis para a ocorrencia de epidemias provocadas pela uniformidade genetica do hospedeiro e a segunda, o monopolio dos recursos geneticos em maos das empresas transnacionais ou nos paises onde estao suas matrizes.

Quanto ao milho Bt, resistente 'a lagarta do cartucho, apresenta serio risco ambiental porque a proteina toxica produzida pelo gene inserido na cultivar de milho nao identifica se a lagarta e' praga ou nao, destruindo ambas.

Alem do risco de reduzir populacoes ou mesmo, causar o desaparecimento de insetos nao pragas, poderao ocorrer eventos que poderao afetar o equilibrio das populacoes de organismos nos seus ambientes naturais, com consequencias imprevisiveis sobre o ambiente, como um todo.

Quanto 'a necessidade de se adotar medidas extremamente rigorosas para garantir a seguranca do uso comercial de organismos geneticamente modificados fazemos algumas consideracoes sobre a pesquisa que estava sendo realizada pelo professor William Donald Hamilton, na Africa, onde faleceu, em marco deste ano, ao contrair a malaria de maneira fulminante.

Sua hipotese de trabalho era que o surto epidemico de AIDS teria originado pela inoculacao involuntaria do virus HIV nas populacoes humanas africanas numa companha de imunizacao contra a poliomielite com uma vacina experimental denominada Chat.

Essa vacina teria sido produzida utilizando-se macacos chimpanze' que poderiam, eventualmente, estar infectados com o virus SIV que e' o mais proximo do principal virus da AIDS (HIV-1, grupo M) (Matt Ridley, Revista Mais: 18.06.2000).

A hipotese mais aceita oficialmente e' que o "escape" do virus HIV teria ocorrido apos a contaminacao de um ser humano por uma estirpe patogenica presente no macaco, no momento da caca, manipulacao de tecidos infectados ou pela relacao sexual.

Entretanto, sabe-se que a probabilidade de um virus nao patogenico ao macaco permanecer por tempo significativo, em um hipotetico portador macaco, e' muito baixa.

Via de regra, a presenca de um microorganismo estranho nos tecidos de um outro organismo vivo ocorre mediante uma relacao de compatibilidade entre o patogeno (no caso, o virus) e o hospedeiro (no caso, o macaco contaminado).

Nao ocorrendo essa relacao, o organismo invasor e' eliminado pelo organismo invadido sendo, portanto, extremamente baixa a probabilidade de um virus nao patogenico permanecer, por um tempo significativo, em organismos do macaco.

Por outro lado, dentro das atividades cotidianas de uma comunidade, eventos como a caca de um determinado animal silvestre (macaco) ou a relacao sexual do ser humano com a mesma especie de macaco cacado, sao eventos raros.

A probabilidade da combinacao destes eventos com outra uma de baixa probalidade (macaco contaminado) e' extremamente baixa. Segundo levantamentos efetuados, a epidemia de AIDS na Africa tiveram origem em varios focos.

A probabilidade de eventos pouco provaveis ocorrerem simultaneamente, em varios locais, e' muito proxima de zero. Por outro lado, duas restricoes de carater probabilistico deveriam ser superadas para que a hipotese atualmente mais aceita fosse robustecida: a primeira seria a presenca no macaco do patogeno (HIV), no momento da sua inoculacao no hospedeiro homem e a segunda, como teria ocorrido a inoculacao do patogeno que iniciou processo infeccioso no hospedeiro, sabendo-se que a sobrevida do HIV fora do organismo humano e' muito curta.

Uma hipotese mais consistente, em termos de probabilidade poderia ser que a estirpe patogenica era um mutante do virus SIV, surgido no meio de cultura utilizado para a elaboracao da vacina anti-poliomielite Chat e que as inoculacoes (involuntarias) foram artificiais e ocorreram no momento da campanha de imunizacao utilizando-se a vacina experimental.

Poderia se supor, mesmo na eventualidade da hipotese do Dr. Hamilton nao se confirmar, que ocorrencias semelhantes sao plausiveis. E' neste aspecto que se estabelece a relacao entre os eventos que poderao ocorrer pela liberacao descontrolada de organismos geneticamente modificados.

Como se dara' a interacao entre o ambiente e um organismo novo, que apresenta quase todo seu genoma (proveniente do organismo onde se inseriu o gene novo) adaptado ao ambiente no qual sera' colocado, sendo que, ao mesmo tempo, o ambiente, por nao ter convivido, ate' aquele momento, com o organismo novo, nao dispoe de mecanismos para tamponar os possiveis impactos.

Sabe-se que a evolucao organica, geralmente, ocorre atraves de selecao dos individuos dentro da variabilidade genetica disponivel dentro da populacao.

Assim, os efeitos provocados pelo "escape" de organismos extremamente patogenicos de sitios restritos para grandes areas ou a dispersao de organismos geneticamente modificados, com alto potencial de impacto ambiental sao muito parecidos, apesar das criaturas terem surgido por processos diferenciados.


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