A esmola high-tech

Cesar Boschetti

A partir do final do século XV, principalmente após a invenção da imprensa com tipos móveis por Gutemberg (1398-1468), as conquistas e descobertas científicas sucederam-se de modo contínuo e crescente. Com a revolução industrial, no final do século passado, a evolução técno-científica ganhou um novo e espetacular impulso, chegando aos dias de hoje com novas descobertas e tecnologias surgindo praticamente a cada hora do dia. Esta revolução técno-científica, sobretudo após a II guerra mundial, trouxe expectativas crescentes de um mundo melhor, sem miséria, sem violência e com maior qualidade de vida para todos. Obviamente, o sonho não se concretizou e, ao que tudo indica, sua realização está em algum ponto ainda indefinido e quiçá remoto no futuro.

A frustração vem naturalmente acompanhada de revolta, que pode estar sendo canalizada por vias obscuras e aparentemente desconexas. Os bolsões de pobreza, em número crescente, estão sendo utilizados cada vez mais como escudo para o narcotráfico e crime organizado. Seitas e correntes radicais também estão encontrando amparo cada vez maior junto à parcelas carentes da sociedade. A carência neste caso não é apenas a material, mas é de perspectivas também. Não é visível, mas é bastante provável que malucos ao estilo Unabomber, estejam se proliferando e se espalhando pelos quatro cantos do planeta.

A defesa do meio ambiente, desejável e benéfica, tem ensejado uma certa radicalização e mistificação de conceitos. Grupos eivados de uma espécie de fundamentalismo naturalista começam a despontar, com reações desfocadas, atacando a tecnologia em si, ao invés de seu mal uso pelo homem. Apesar de a possibilidade de uma III Guerra Mundial ter se afastado após o colapso da União Soviética, a escalada da violência, do terrorismo e de ativistas radicais ao redor do mundo, é patente.

No mundo virtual, os ataques à rede mundial de computadores multiplicam-se de modo frenético dia após dia. Apesar dos avanços tecnológicos, o caldo de cultura para todas essas tendências anárquicas torna-se cada vez mais propício e deveria suscitar preocupações mais sérias. Contrariando o otimismo dos Tecnocratas e entusiastas das novas tecnologias, na realidade o mundo não vai nada bem. Do mesmo modo que é ingênuo apostar nas tendências tecnológicas e econômicas para as próximas décadas, é igualmente pífio tentar traçar os possíveis desdobramentos desse mundo paralelo, radicalizado por necessidades e frustrações e, possivelmente, parasitado pelo submundo do crime organizado.

Combater esses diversos elementos espúrios de modo simplista e isolado pode não ser a melhor saída, municiando-os mais ainda. Julgar que não haja nenhuma correlação de causa entre eles também pode ser precipitado e perigoso. Seria mais efetivo a conscientização e a ação de fato, no sentido de colocar a tecnologia e o conhecimento como instrumentos de progresso e bem estar para todos. Isto efetivamente não está sendo feito. O mundo high-tech é ainda para poucos. A crença de que a disseminação das novas tecnologias vá incorporar naturalmente os excluídos, sem o concurso de uma postura filosófica mais solidária e humanística, pode ser uma ilusão perigosa. Telefones celulares e algumas outras bugigangas tecnológicas, acessíveis aos pobres e incultos, é muito pouco. A exemplo da esmola, o agrado é passageiro e sem substância.

Atenciosamente,
Cesar Boschetti
Tecnologista - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
São José dos Campos-SP
http://sites.uol.com.br/cesarboschetti/

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